julho 2026

Infraestrutura: peça estratégica no portfólio

Por Mario Nevares, sócio e head de investimentos internacionais da G5 Partners.

Um total de US$ 151 trilhões. Esse é o valor que o mundo precisará investir em infraestruturaaté 2050, segundo um estudo da PwC. A magnitude impressiona: esse montante supera todoo PIB global atual, hoje em torno de US$ 126 trilhões. Isso significa que, nas próximasdécadas, será necessário reconstruir e expandir a infraestrutura global, que vai de rodovias eportos a redes elétricas e data centers, em uma escala sem precedentes.

Ao mesmo tempo, muitos países enfrentam uma dinâmica fiscal desafiadora e umacapacidade cada vez mais limitada de investimento público, abrindo espaço para que ocapital privado desempenhe um papel central no financiamento dessa transformação.

Outro dado que chama atenção vem do 2026 Global Family Office Report, do J.P. MorganChase Private Bank: em média, famílias ao redor do mundo alocam menos de 1% de seusportfólios em infraestrutura, enquanto quase 80% sequer têm exposição à classe.

Esse dado se torna ainda mais relevante quando observamos que apenas uma pequenaparcela dos ativos de infraestrutura é negociada em bolsa. Grande parte da criação de valorocorre fora dos mercados públicos, no universo dos mercados privados, por meio deestratégias como private equity e private credit como exemplos.

Para gestores de patrimônio, essa realidade traz uma reflexão importante: ignorar osmercados privados significa potencialmente deixar de fora uma parcela relevante da criaçãode valor global, especialmente em uma classe de ativos estruturalmente ligada a tendênciasde longo prazo.

Para muitas famílias e investidores, a construção de portfólios internacionais aindapermanece fortemente concentrada em renda fixa e em ações globais, especialmente nabolsa americana e no setor de tecnologia. Embora essas exposições sejam relevantes, essaconcentração frequentemente deixa de lado classes de ativos capazes de oferecerdiversificação estrutural, proteção inflacionária e exposição à economia real.

Ao analisarmos os atributos da classe, infraestrutura se destaca por oferecer baixacorrelação com ativos tradicionais, como ações e renda fixa, contribuindo para adiversificação dos portfólios. Além disso, historicamente, busca retornos atraentes de longo prazo, frequentemente comparáveis aos mercados acionários em determinados segmentos,porém com perfis de volatilidade e geração de caixa potencialmente mais resilientes.

Além do seu caráter tradicionalmente mais defensivo, a infraestrutura moderna tambémoferece exposição direta a importantes megatendências estruturais, como digitalização,eletrificação da economia, inteligência artificial e transição energética.

Um diferencial importante é que muitos investimentos em infraestrutura possuemmecanismos de proteção contra a inflação, característica especialmente valiosa em umambiente de inflação mais persistente, maior fragmentação geopolítica e cadeias globaismenos integradas.

Outro aspecto relevante é a exposição a ativos reais – como rodovias, portos, aeroportos,linhas de transmissão e data centers -, em contraste com setores nos quais grande parte dovalor está concentrada em ativos intangíveis. Somam-se a isso a previsibilidade e aestabilidade dos fluxos de caixa, fatores que tornam a classe particularmente interessantepara investidores de longo prazo.

O desafio, naturalmente, está na seleção dos ativos e dos gestores mais qualificados paraconstruir uma exposição global eficiente.

Em resumo, a combinação entre uma necessidade massiva de investimento, restriçõesfiscais dos governos, baixa alocação atual dos investidores e características atrativas derisco-retorno sugere que infraestrutura pode deixar de ser uma alocação marginal para setornar um componente cada vez mais estratégico na construção de portfólios de longo prazo.

Talvez a pergunta certa não seja mais se a infraestrutura merece espaço nos portfólios, masse os investidores ainda podem se dar ao luxo de deixá-la de fora.

Mario Maia Nevares é head de international investments da G5 Partners

Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal nãose responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou porprejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

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